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domingo, 29 de abril de 2018

Rio 2054, Os filhos da Revolução (Jorge Lourenço)


RIO 2054: Os filhos da Revolução (Jorge Lourenço)

Rio 2054: Os filhos da Revolução é o livro de estréia, e único até agora, de Jorge Lourenço, jovem escritor e jornalista carioca que já escreveu para O Globo, Uol e outros veículos de imprensa. Lourenço ambienta o seu romance com propriedade, ostentando conhecimento de quem mora a vida inteira na cidade fluminense.  O livro tem clara inclinação para a questão da segregação do espaço urbano, que é tão facilmente perceptível nas grandes cidades. Observe nos dias atuais, por exemplo, a diferença entre a Rocinha e Ipanema. A obra é prato cheio para quem tem interesse em Geografia, História e Sociologia.

Antes de partir para sinopse em si, para o interior dos e das protagonistas, vou explicar um pouquinho como é o universo de Lourenço.


O mundo em 2054

A cidade do Rio de Janeiro está dividida entre Rio Alga (ou as Luzes) e Rio Beta (ou os Escombros). A diferença entre as duas é monumental. As Luzes são extraordinariamente ricas, enquanto os Escombros compreendem uma área segregada cuja tecnologia não chega nem ao que temos hoje, em 2018.  Seus habitantes não podem cruzar as fronteiras, que são guardadas vinte e quatro horas por dia. Utopia para quem?


Na década de 20 (do século XXI), uma guerra civil movida por grupos separatistas provocou essa situação. Tais grupos congregaram as mais diversas correntes ideológicas contra a divisão injusta dos royalties de petróleo da nova reserva de petróleo encontrada no Rio, a Pré-sal 2. A divisão favorecia a iniciativa privada em detrimento do público, e as autoridades, claro, não facilitaram para que o interesse coletivo superasse o individual. A ONU, em conjunção com as classes dominantes, isolou a área rebelde do Rio e a transformou em um complexo com o nome de Zona Internacionalizada (ZI). A força militar liderada pela OTAN terminou o serviço detonando uma bomba nuclear no centro da cidade, isolando-o das duas partes da cidade.

Nos Escombros, as pessoas se alimentam com frutas podres adquiridas em sua maioria na feira-livre da terça-feira, um espaço que vende os restos das Luzes a preços acessíveis. A vida social da Rio Beta é recheada de gangues, elemento retratado durante todo o livro. Já na parte nobre, a tecnologia se desenvolveu a tal ponto que os robôs, — alguns deles, não todos — foram atingidos pela seciência (conceito do próprio Jorge Lourenço), espécie de consciência existencial dos robôs, também chamada de “Fantasma”.

Claro que o foco do livro é a distopia, um subgênero da ficção científica. Mas o livro também trabalha com a fantasia. Existem alguns indivíduos "especiais" neste mundo. As suas habilidades vão desde a telecinésia até a previsão de um futuro próximo. Não há nenhuma explicação com verossimilhança científica para isso, e esses indivíduos são perseguidos pelas autoridades e são literalmente apagados da história. Mas não trate isso como maldade, afinal, este livro não trabalha com lados bons e lados maus. O governo e as empresa dão "as suas voltas" e conseguem legitimar todas as suas ações.

Sinopse

Miguel é um jovem que ganha a vida vendendo próteses. Esses aparelhos são retirados das carcaças dos soldados vitimados pela guerra civil, que repousam no centro da cidade (sim, na área radioativa). Miguel descobriu, com a sua inseparável moto, uma passagem para o centro, e nunca sofreu nenhuma sequela da radiação. Ele revende os produtos adquiridos lá para o seu melhor amigo, Nicolas, que é médico diletante. Também é lá que, em um sebo em ruínas, consegue manter seu vício de leitura, que não é o mesmo vício da sua ex-namorada, Nina, que se afundou nas drogas com a decepção de não conseguir uma forma de se mudar para as Luzes.

No ano de 2054, aparece uma personagem misteriosa. Angra, uma moça misteriosa e carismática, começa a ganhar enorme poder de influência. Chama a atenção o seu estilo cruel de derrubar adversários na batalha de gangues, esporte mais famoso nos Escombros, cuja violência serve de show televisivo para as Luzes. A grande problemática é que Angra usa as batalhas como estratégia para algo maior. Ela é a mudança. Qual é o caminho que Angra quer trilhar para os Escombros? O que significa a ascensão meteórica dela e de sua gangue?

É aí que entra em cena o Comandante, maior mafioso do Rio Beta. Curioso com a ascensão de Angra e tendo como pressuposto de que ela pode ser nociva para a sociedade, ele reúne o melhor motoqueiro de cada gangue para derrotar a Éden, gangue que ela lidera. Miguel, por ser amigo de infância de Anderson, líder uma grande gangue, também é convidado para o ambicioso projeto do Comandante. Só aceita porque ele encontrou Alice, robô com um “fantasma” acentuadíssimo que está prestes a descarregar; sua bateria é caríssima e ele, com as poucas palavras que trocaram, se encantou com a vontade que ela tem de descobrir mais sobre si mesma e sobre a vida. A única maneira de conseguir a grana para pagar a bateria é participando do crime, coisa que ele sempre teve repulsa. 

O próximo subtítulo contém um pequeno spoiler (não muito grande), então, basta pular para as considerações finais  (o que ficou do que passou) caso você ainda não tenha feito a leitura da obra.

Uma análise

Fiquei encabulado com uma cena em que o Comandante (um homem misterioso que aparece sob disfarces de Che Guevara, Fidel Castro, Lênin e outras personalidades socialistas) discute com o Miguel e, aparentemente, o convence de que os ideais revolucionários de Angra não são tão legais assim.  O cara, com um discursinho que romantiza a pobreza, defende com unhas-e-dentes que a vida nos Escombros é mais legal do que nas Luzes, fazendo uso de argumentos como o de que, nas Luzes, as pessoas estão aprisionadas às redes sociais e à vida fútil e consumista da classe média.

Ora, se isto for verdade, então beleza, vamos viver em áreas com esgoto a céu aberto, fazendo voto de pobreza, participando de forças contrarrevolucionárias só porque sim, é a única maneira de barrar a nefasta revolução que livraria pessoas miseráveis de suas vidas famintas e pouco saudáveis. Estou com o Miguel nessa discussão! Embora em mim tenha ficado uma impressão de que a última palavra foi do Comandante, que ele talvez tenha “vencido” o debate com seus argumentos ridículos.

A verdade é que, querendo ou não, Angra é a síntese da libertação daquele povo dos Escombros, da inconformidade com as situações de vida impostas pelo capitalismo a esse povo. Aliás, para falar a verdade, Angra nem é revolucionária: ela só quer que o povo tenha acesso aos confortos e consumos de fora daquela miséria absoluta na qual ela e seus conterrâneos vivem. Mas que o Comandante, o suposto socialista, é contrarrevolucionário, ah, não tenha dúvidas!...

O que ficou do que passou

O livro é um primor. Fiquei bem irritado com algumas personagens de grande evidência positiva na trama. Se o livro fosse meu, o Comandante, por exemplo, não circularia pelos protagonistas. Seria apenas um contrarrevolucinário que se utiliza oportunamente de símbolos socialistas. Apenas um rico filantropo, como Bill Gates. Mas a verdade é que o livro não tem muito de maniqueísta, a questão de bem e mau, o que me deixa bastante contente. Livros assim nos fazem refletir muito mais, e a interpretação de cada pessoa diz muito sobre o que ela acredita. 

A abordagem de Jorge Lourenço não deixa a desejar na questão da luta de classes. A desigualdade social está presente em todas as páginas, e o tratamento não é simplista: existem dois pólos, as Luzes e os Escombros, porém, há complexidades. Até nas Luzes há diferenciação social, uma vez que a maior parte da população de lá é formada por classes médias, e uma pequena parte vem da elite. Nos Escombros também há os que conseguem, por exemplo, comprar frutas e verduras em qualquer dia da semana, e não só nas terças-feiras como quase todo mundo.


Outro grande mérito de Jorge Lourenço é a fluidez da sua linguagem. Minha vontade é a de ficar horas e horas lendo o seu livro, mesmo se eu tiver outras obrigações. A pena é que eu não achei outras obras dele em minha pesquisa e pode ser que esta seja o seu único romance até hoje. Espero, portanto, que eu esteja bem enganado. No entanto, como se vê na imagem ao lado, ele é bem jovem e pode ainda nos presentear com outras obras no futuro.

Recomendo muito: leia Rio 2054, Os filhos da Revolução. Se não gostarem, a responsabilidade é minha. 

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